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INDUBRASIL










 

Fonte: Boletim Pecuário

O mestiço de Guzerá com Nelore dominou os primórdios da
criação de Zebu no Brasil, desde 1890 até 1920 (Santos, 1998).
Com a introdução da raça Gir, entre 1911 e 1920, os produtos
cruzados (Guzonel x Gir) -todos denominados como apenas
"Zebu" - adquiriram seu aspecto definitivo, exibindo um grande
porte, habilidade para longas caminhadas e matrizes eficientes.
Diz Torres Homem (in Santos, 1994) que "a raça Indubrasil,
obtida pela fusão do Guzerá, Nelore e Gir foi criada com o
objetivo de reunir em urna única raça as boas qualidades que
se encontravam separadamente nas três anteriores,
importadas".

O sucesso desse cruzamento foi tão grande que, além de se
espalhar pelo país inteiro (iniciando o período que ficou
conhecido como império das orelhas"), também incentivou duas
exportações, entre 1923 e 1924, para os Estados Unidos, com
intenção de consolidar a raça Brahman (foram enviados animais
das raças Guzerá, Nelore, Gir e alguns cruzados).

José Caetano Borges consolidou o tipo "Induberaba", na
cidade de Uberaba em 1926; mas existiam outras variedades
como o "Induaraxá", o "IndubeIém", o "Indugoiás", o
"Indupora-", etc. Em 1929 fol aprovado o nome "Indubrasil",
para o novo gado, cujo padrão racial seria homologado em
1938, com direito a Registro Genealógico próprio.

O Indubrasil dominou a pecuária brasileira, desde 1925 até
1945. Em 1930 já passava de 15% do total nacional,
aumentando para 79,8% em 1940. Em 1946, gado Indubrasil foi
exportado para os Estados Unidos, tendo em vista o
melhoramento do gado Brahman, dando surgimento a um gado
com fisionomia nitidamente indubrasilada que persiste até hoje.
Em 1980, corresponderia a 3,7% do total registrado do Brasil,
sendo que boa parte das matrizes eram utilizadas em
cruzamentos leiteiros. E difícil compreender porque uma raça
cheia de bons predicados e sobejamente conhecida em muitos
paises está mergulhada no marasmo dentro do Brasil. Com
apenas um empurrão e participação intensa em provas
zootécnicas, o Indubrasil voltaria a ser uma das raças preferidas
do país.

Atualmente, o habitat está restrito ao Nordeste e a Minas
Gerais, embora no restante do Brasil as vacas continuem sendo
procuradas para servir como base de cruzamentos
indiscriminados.

A Consolidação do Indubrasil no Brasil



Boa parte dos mestiços enviados para o corte, ainda na
atualidade, exibe a característica meia-oreIha, significando que
recebeu infusão de Indubrasil, Gir ou Guzerá. De fato, a vacada
F-1 é normalmente produzida a partir do cruzamento de Nelore
com touros europeus - condicionando a progênie a apresentar,
sempre, orelhas pequenas. Já as gerações F-2 e F-3,
normalmente destinadas ao abate, surgem no cenário com a
típica meia-orelha.

Em parte, a meia-orelha é reminiscência de antigamente,
quando a grande maioria de animais brasileiros apresentava
influência de Indubrasil e, bem menos, de Gir e Guzerá. Essa
característica indicava, no passado, uma forte influência de
"Zebu", significando rusticidade e, ao mesmo tempo, significava
grande porte.

Embora tão apreciado pelo porte e pelo peso, o Indubrasil ficou
restrito a criadores tradicionais, dando pouca chance ao
surgimento de novos criadores por uma raça bovina num mundo
que vai se tornando cada vez mais dinâmico, exigindo
renovação constante. O Indubrasil é a raca que mais tem sofrido
com o choque entre "o tradicional" e o "inovador", na
modernidade.

Por falta de inovações dentro da raça diga-se, por falta de
liderança na área científica - pouca evidência tem sido dada ao
Indubrasil, embora esta situação seja facilmente contornável.
Realmente, os criadores, na última década, começaram a
apresentar machos com umbigo reduzido, melhor conformação
de carcaça, crânio mais de acordo com a Biotipologia, aprumos
mais sólidos. Alguns criadores começaram até a ordenhar
vacas para aferir a aptidão leiteira e, então, dar início a um
programa de adequação do úbere e tetas para o manejo diário.
O Indubrasil, portanto, vai adquirindo um novo visual, sem alguns
senões que o prejudicaram, no passado.

Jodas essas inovações deixam claro que o horizonte do
Indubrasil está se ampliando e já se percebe que surgem, aqui e
acolá, novos criadores. Afinal, a melhor alternativa de
acasalamento com raças européias brancas para fazer a
vacada-criadeira, há menos de 30 anos, era o Indubrasil.
Naquele tempo, em muitas regiões, a geração F-1 era
produzida com Indubrasil e Chianina, ou Marchigiana, ou
Charolés, etc. A raça Nelore entrava no programa, logo a seguir,
na formacão da geração F-2 ou F-3. Devido ás diversas
facilidades que o Nelore oferece, principalmente quanto á sua
aquisição, este suplantou o uso do Indubrasil - como era de se
esperar.

O lugar do Indubrasil, no entanto, continua sólido, pois é um
zebuino de grande carcaça, com lugar garantido em muitos
países. Não é á toa que é a raça brasileira com grande efetivo e
aceitação em diversas nacões, até o momento. Ou seja, das
raças exportadas é a que mais tem, frutificado no exterior.



Alguns criadores movimentam-se, tentando colocar o Indubrasil
em pesquisas e provas zootécnicas especiais, para não ficar
restrito apenas ás provas da ABCZ. O Indubrasil começa a
correr atrás de estatÍsticas que provem seu valor, de acordo
com as exigências do moderno pecuarista. E uma tentativa de
deixar de ser um "gado do passado" para ser um "gado do
presente ou do futuro".

O Melhoramento Genético



Além dos programas convencionais da ABCZ (Registro
Genealógico, Controle Ponderal, Provas de Ganho de Peso,
PMGZ), o Indubrasil vinha sendo pesquisado para formação da
raça Santa Mariana (Indubrasil x Ho-landês), para produção de
leite. Normalmente conhecido como "Induolando".

O Indubrasil na modernidade



A raça vive um momento de discussão a respeito dos seus
horizontes que, mesmo sendo positivos, ainda não conseguem.
ser assimilados pela maioria dos criadores. O tradicional Torres
Homem Rodrigues da Cunha afirmou que "o Indubrasil é o
maior desperdício zootécnico" na históría da pecuáría nacional,
pois é cheio de virtudes e foi tão mal explorado a partir dos
próprios criadores.

Reforçando as palavras de Torres Homem é fácil verificar que
constitui também um enorme desperdício mercadológíco, uma
vez que é raça de grande aceitação no exterior. Ao Indubrasíl
tem faltado, portanto, apenas um gesto: o de sair da letargia em
que mergulhou, depois do desaparecimento de alguns
importantes líderes.

O caminho é um só: o retorno ás provas zootécnicas para
mostrar que as novas gerações e linhagens são superiores. Ao
mesmo tempo, promover a globalização da raça, ou seja, fundir
o Indubrasil com o "Indobrasíl' dos demais países, com amplas
vantagens para todos.

A região Norte tem 1% da raça; a região Nordeste tem 52%; o
Sudeste tem 40% e o Centro-Oeste tem 7%.

Existem 230 associados praticando o registro genealógico.
Desde 1938 já foram registrados 209.192 animais. Do total,
5.536 foram registrados entre 1995 a 1999 (10 semestre). No
Indubrasil, o ano recente de maior número de registros foi 1997,
com 1685 animais.

Foram vendidas 61.333 doses de sêmen entre 1995 a 1999;
sendo que apenas em 1998 foram vendidas 16.410.

O Indubrasil como ele é



O crânio apresenta um perfil subconvexo, corn fronte mediana.
Os chifres são medianos, saindo para fora, para trás , para cima
e para dentro. As orelhas são longas, pendulosas, com a face
interna voltada para a frente e as extremidades curvadas para
dentro. Menciona Felius (1985) que o lndubrasil apresenta a
mais comprida oreIha entre as raças bovinas do mundo.
Villares, ern urna ampla pesquisa realizada na década de 1980,
confirmou que as orelhas haviam crescido ainda rnais nos
últimos tempos. A cauda é longa, com vassoura negra, podendo
ser mesclada nos animais claros. O úbere é penduloso, com
tetas grandes. A cauda é longa, bem abaixo dos jarretes.

Modernamente, selecionam-se animais de bainha curta e saco
escrotal compatível com o grande porte, de acordo com as
regras ditadas pela moderna Zootecnia. Também os aprumos
estão sendo observados com maior rigorismo.

A pelagem é branca, amarela, cinza ou vermelha, podendo
apresentar a frente, o posterior e as extremidades escuras. A
pele é negra, admitindo-se um clarearnento nas partes não
sombreadas, e um tom róseo no úbere, região inguinal e no
períneo.

A Funcionalidade do Indubrasil



O Indubrasil nasceu para ser o gigante entre os zebuinos, em
termos de porte e volume. Estas duas grandes vantagens
devem ser acompanhadas por outras, corno a fertilidade,
habilidade maternal, rusticidade e precocidade. Não se
encontram suficientes dados científicos sobre o desempenho do
Indubrasil em termos de fertilidade ou de precocidade. Sua
rusticidade é reconhecida, pois ainda é bastante criado no
semi-árido nordestino, onde já chegou a plasmar alguns tipos
regionais.

Na idade adulta, as fêmeas pesam entre 500-750, com recorde
em 900 kg; os machos pesam entre 850-1.000 kg com recordes
acima de 1.200 kg. A produção de leite pouco tem sido
pesquisada mas há registros populares de fêmeas com
produções entre 10,0 - 15,0 kg/dia.

Ganho de Peso do Indubrasil



O Indubrasil dominou o cenário brasileiro durante décadas,
justamente pelo grande porte e peso. Foram estas
características que levaram o Indubrasil a ser a raça mais
cultivada no exterior. Estas duas características permanecem
até hoje, embora a raça tenha sido pouco introduzida nas provas
oficiais.

Até 1999, o Indubrasil inscreveu 40.438 animais no
CDP-Controle do Desenvolvimento Ponderal, ou 3,08% do total
desta prova. Comparando com o rebanho nacional, observa que
o Indubrasil testou 94,11% de seu efetivo.

O Indubrasil nasce pesando entre 32-34 kg. No Regime
¡(campo), pesa 168 kg aos 205 dias; 247 kg aos 365 dias; 319
kg aos 550 dias. No Regime II (semi-confinamento) pesa 196
kg; 302kg e 391 kg, respectivamente. No Regime III
(confinamento) pesa 212 kg; 313 e 417, respectivamente.
Indubrasil esteve

presente em 19 PGP- Provas de Ganho de Peso, entre as
primeiras 316 realizadas pela ABCZ, totalizando animais.A
média deganho diário na última fase em que participou foi de
989,60 gramas/dia. e o peso calculado aos 365 dias foi de
358,15. Apresentou 1,57% do total dos1 animais inscritos nas
provas, equivalendo a 1 animal testado para cada lote de 187
portadores do RGN. Comparando o percentual de animais
inscritos no RGN e de animais inscritos nas provas, observa-se
que ao Indubrasil ainda falta provar 7 animais, para atingir o
equilíbrio entre os dois parâmetros.

O maior Peso Calculado aos 365 dias nas Provas de
Ganho de Peso é de "Lombado" com kg, na Prova n.182.

Na idade adulta, o destaque é de "Bradesco do Capitão", com
1.174 kg aos 60 meses título conquistado em 1987, seguido por
"Farol-II do Capitão", com 1.102 kg, no ano de 1993. Entre as
fêmeas, o destaque é de "Luana", com 910 kg, em 1975,
seguida por "Flórida", com 850 kg, em 1974.

O Indubrasil nos cruzamentos leiteiros



Algumas vezes foram encontrados lotes de gado Induolando
(touro Holandês sobre vaca Indubrasil) presentes em
exposições - mas sendo considerados como Girolando. Na
realidade, qualquer cruzamento de Zebu com Holandês acaba
recebendo, popularmente, o nome de Girolando. Esta prática só
será restringida no momento que houver um "selo de qualidade"
para o Girolando, deixando claro que as raças componentes
foram, exclusivamente, o Gir e o Holandês. Até lá, qualquer
mestiço poderá receber o nome de "Girolando", pois e o nome
já consagrado, há décadas, indicando qualquer Zebu acasalado
com touro Holandês.

Sendo o Indubrasil uma raça criada em pequenas e médias
propriedades é uma tendência natural tentar produzir leite com
mestiços de Holandês. O gado Santa "Mariana" é o resultado
do cruzamento de Holandês com Indubrasil, realizado no interior
do Estado de São Paulo, tendo recebido algumas anotações. O
Induolando é bastante comum nos países que criam Indubrasil
(México, Costa Rica, etc), embora sempre sem as necessárias
anotações.

O gado denominado "Itapetinga" é o resultado do cruzamento
de Indubrasil com Pardo-Suíço, com finalidade leiteira e também
de corte. Este cruzamento vem sendo mantido na região sul da
Bahia.

Uma prática bastante comum é cruzar um touro Indubrasil sobre
vacada comum leiteira, agirolandada, com bons resultados em
termos de um gado de dupla aptidão, maior porte e maior peso.

O Indubrasil nos cruzamentos de corte



Os cruzamentos indiscriminados acabaram consumindo boa
parte do rebanho lndubrasil, sem que antes essa raça tivesse
realizado pesquisas de produtividade. Atualmente, podem ser
colhidos alguns dados nos trabalhos do pecuarista Armando
Leal do Norte, de Lajedão (BA) que pratica dezenas de
cruzamentos distintos - com bons resultados para o Indubrasil,
tanto utilizando o Holandês, como diversas raças européias de
corte. Garante Armando Leal que existe um lugar específico
para o Indubrasil nos modernos cruzamentos de corte, bastando
contar com boas matrizes.

De fato, o Indubrasil sempre foi de grande porte, ocupando a
mesma área per capita que outras raças. Esse grande porte é
uma vantagem essencial para o melhorista. Todo programa de
cruzamentos, portanto, ao procurar um maior porte, por meio do
sangue zebuino, poderá optar, sempre, pelo Indubrasil.

O Indubrasil Brasileiro para o Mundo



O Indubrasil é a raça brasileira de grande sucesso no exterior,
com rebanhos na maioria dos países latino-americanos e nos
Estados Unidos, sob a denominação de "Indobrasil", para
lembrar um gado originário da Índia e do Brasil. Em alguns
países, logrou um notável melhoramento zootécnico, sendo uma
espécie de "cartão-de-visita" dos pecuaristas. Existe até um
certo ufanismo com o Indubrasil, em países como o México, por
exemplo.

Vem crescendo a corrente dos criadores que acreditam que a
retornada do melhoramento acelerado do Indubrasil deverá
acontecer por meio de importações de material genético
"Indobrasil"

nos próximos anos, como maneira de revigoramento da raça no
Brasil. Se o "Indobrasil" tem virtudes a serem incorporadas ao
Indubrasil então o melhor é buscá-lo, o quanto antes, para não
perder mais tempo. Se alguém não o fizer, hoje, outros o farão
amanhã.

Ademais, o Indubrasil é uma raça "mundial", com presença em
vários países, e - corno tal - nada mais interessante do que
efetivar um intercâmbio de material genético em todas as
direções. No mundo globalizado, o obsessivo apego ás raízes e
tradições pode significar prejuízos, pois o dinamismo gerencial
e a velocidade das comunicações leva, como regra, á mudança
da fisionomia dos produtos, com rapidez jamais vista.
Progresso, no mundo globalizado, significa colocar maior
quantidade de produtos com melhor qualidade e menor preço,
na mesa dos consumidores - nada mais!

Fonte: Os Cruzamentos na Pecuária Tropical - Ed. Agropecuária Tropical
Digitalizado pelo Boletim Pecuário.
 

Fonte: Boletim Pecuário